Não é você, o problema sou eu

Atualizado: 28 de set.
Considerações sobre o início do tratamento psicanalítico
"Às vezes, quando ergo a cabeça estonteada dos livros
em que escrevo as contas alheias e a ausência de vida própria,
sinto uma náusea física, que pode ser de me curvar,
mas que transcende os números e a desilusão. A vida desgosta-me como um remédio inútil. E é então que eu sinto com visões claras
como seria fácil o afastamento deste tédio se eu tivesse a
simples força de o querer deveras afastar."
[Livro do desassossego, Fernando Pessoa por Bernardo Soares]
O paciente bate à porta do analista porque sofre e não quer mais sofrer. Não quer mais sofrer e procura um analista para falar disso, pois supõe que saibamos como e o que fazer com isso.
“Fale o que sabe de si”; é algo assim que Freud indicava aos seus pacientes. Fale o que sabe de si, conte sua história. E ao dizer de si o sujeito escreve sua história. Isso leva tempo. “O sujeito, confessando sua história em primeira pessoa, progride na ordem das relações simbólicas fundamentais em que tem de encontrar o tempo, resolvendo as paradas e as inibições que constituem o supereu. É preciso tempo” (LACAN, 1975).
Por onde começar? “O material com que se inicia o tratamento é, em geral, indiferente – a história da vida do paciente, ou a história de sua doença, ou suas lembranças de infância. Mas, em todos os casos, deve-se deixar que o paciente fale e ele deve ser livre para escolher em que ponto começará” [FREUD, 1913]. Caberá ao analista ir mostrando os caminhos para o tratamento analítico prossiga até seu término.
É comum o paciente se preparar cuidadosamente para o que irá comunicar na sessão, aparentemente como modo de aproveitar o tratamento da melhor forma possível. No entanto, “Qualquer preparação deste tipo não deve ser recomendada, pois ela é empregada apenas para impedir que pensamentos desagradáveis venham à superfície” (idem).
Em se tratando de um neurótico que possa se responsabilizar pelo seu sofrimento (ressalva importante, pois nem todos que procuram uma análise são neuróticos e porque nem todos os neuróticos podem se responsabilizar já no começo), rapidamente o sujeito percebe que não é tão fácil assim mudar ou se livrar daquilo lhe causa sofrimento, pois o neurótico tem uma relação profunda e complexa com seus sintomas.
Ficar curioso, fazer perguntas, procurar compreender que responsabilidade se tem nisso do qual se queixa, e não atribuir ao inferno astral, retorno de Saturno, dedo podre, sina, praga, torna o processo mais possível e mais libertador, pois: “... somos sempre responsáveis da nossa posição de sujeitos”, é o que escreve Lacan em A ciência e a verdade (1998, p. 873).

Inicia-se escrevendo uma história, mas uma psicanálise quer muito mais que isso. Uma análise pretende mais do que o sujeito saber de si e responder às suas perguntas. O tratamento (e não o paciente) é dirigido para que o sujeito possa assumir outra posição frente a experiência, reordenar o que o determina, mas não sem se responsabilizar por isso. Por exemplo: sou mulher e isso me determina, mas existem tantas maneiras de me posicionar em relação a isso!
Vejam, a ideia não é que já exista uma verdade escondida e que vamos descobrir, ou que todo nosso inconsciente seja iluminado pelas luzes da consciência, ou que, ainda, no final de uma análise o paciente encontre seu verdadeiro propósito de vida. O que se espera é que se passe do inconsciente à fala, e que, ao falar o que fala, possa ser escutado e a partir disso se aproprie de seus dizeres e possa fazer algo com eles.
É neste sentido que o tratamento psicanalítico precisa ser dirigido, na aposta que o paciente possa se responsabilizar por quem ele é, “de se assumir responsável por aquilo que o causa.
Se o sujeito não se posiciona para assumir sua causalidade pensando que o que o causa vem de fora, ele sofre passivamente por estar preso ao outro que lhe causou sofrimento. Ele deixa de ser livre, e o que lhe resta é a impotência de se assumir sujeito” (FONTES, et al., 2014).
Responsabilidade de responder por essas mudanças, responsabilidade pelo que ganha e pelo que perde no encontro e na relação com o outro. Liberdade tem preço, cada um decide se quer pagar por ela.
FONTES, A. M. M. ; PAIVA, A. ; WANDEPOL, B. ; DEVEZA, C.; PEREIRA, I. A. Este “estranho” mal-estar. 2014. (Apresentação de Trabalho/Comunicação - FE/USP).
FREUD, S. Sobre o início do tratamento (Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise I ) (1913)
_________. Recordar, repetir e elaborar (Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise II) (1914)
LACAN, J. [(1953-54) 1975] O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Trad. B. Milan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.
__________. (1998) A Ciência e a verdade. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

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