Recursos

Atualizado: 27 de set.
“Outra chave,
outra palavra
que pode entrar no turbilhão dos flocos.”
Paul Celan, Com outra chave (De limiar em limiar, 1955) *
Durante o processo que chamamos vida, provavelmente alguém irá nos enganar, nos desprezar, nos trair, nos trocar, nos esquecer, nos humilhar. A lista de atos que podemos receber de alguém é enorme. Como enorme também é a lista de atos que podemos cometer. A questão aqui não é um julgamento sobre tais atos. A consideração que faço através de um questionamento é: como cada um pode lidar com o que lhe afeta?
A resposta a um ato que nos afeta é muito variável e, de alguma forma, segue padrões esperados em determinada época, geografia, biologia, sociabilidade. De qualquer forma, já que partimos disso, nos afeta. Alguns revidam, “dão o troco”, por exemplo.
Aliás, esta expressão “dar o troco” é interessante e significa: você me deu algo em excesso e estou lhe devolvendo o que não é meu! Bom, não é? É simples quando tratamos de questões objetivas. No entanto, esta expressão é comumente utilizada em questões subjetivas e aí as coisas complicam-se, pois como separar o que é de um e de outro? Como nomear qual o excesso e, portanto, qual o troco a ser devolvido?
Quando queremos “dar o troco”, o que exatamente queremos devolver? A agressão? A dor? A humilhação? Ou queremos que o outro reconheça aquilo que nos fez? Às vezes, o “troco” não é uma resposta ao ato do outro. É uma tentativa de produzir no outro uma determinada resposta. E aí o circuito se complica. Talvez o ímpeto seja: “Eu quero que você sinta o que eu senti.” Mas isso é possível? Se eu humilho quem me humilhou, consigo devolver a minha humilhação? Ou apenas produzo uma nova humilhação?
Outras respostas ao um ato podem surgir, como se calar e se resignar, envergonhar-se, brigar, agredir, expor publicamente a questão, se vingar. A lista de verbos também é enorme, mas nem sempre eles findam o debate ou conflito.
O que a maioria provavelmente faz é decidir rapidamente qual é o troco e livrar-se logo do excesso incômodo. Isso resolve? Tenho minhas dúvidas, pois há uma diferença entre simplesmente reagir e conseguir dar uma resposta que seja própria.
Ou seja, fazendo um esquema aqui para ilustrar, visualizemos o que foi dito aqui até aqui:
acontecimento → afetação → interpretação/fantasia → resposta
Duas pessoas podem receber praticamente o mesmo ato e serem afetadas de maneiras radicalmente diferentes. Não porque uma delas “escolheu” sofrer e a outra não, mas porque um acontecimento nunca chega ao sujeito sem passar por sua própria história.
O que nos acontece não chega a nós sozinho. Chega acompanhado daquilo que já somos, daquilo que vivemos, sabemos, daquilo que esperamos, tememos, fantasiamos, desejamos e também daquilo que não sabemos, esperamos, tememos fantasiamos ou desejamos.

Há situações em que, e sujeitos para os quais as listas, os verbos, as saídas já utilizadas, as respostas comumente utilizadas não bastam. Nestas situações, contamos como possibilidade engajar-se em um processo de análise, pois no campo subjetivo, nunca sabemos com tanta facilidade o que pertence ao outro e o que passa a nos pertencer. Processo de análise entendido como um espaço onde o sujeito possa falar e escutar o que lhe causa, o que lhe afeta. Um espaço que é dirigido não para tentar entender os motivos que levaram o outro a fazer tal coisa com você, mas sim para buscar respostas sobre por qual motivo você se afetou de tal ou tal maneira. Um espaço dirigido para o sujeito falar e ser escutado, sem preocupar-se com o que o escutador vai pensar. Um espaço onde o sujeito possa encontrar saídas autênticas e sustentáveis.
Talvez a análise não nos ensine exatamente o que fazer quando alguém nos engana, nos despreza, nos trai, nos troca ou nos esquece. Talvez sua aposta seja outra: criar um espaço em que possamos descobrir por que determinadas coisas nos atingem de determinadas maneiras, o que fazemos com aquilo que nos atinge e quais respostas, entre tantas já conhecidas, ainda podemos inventar.
* Poema de Paul Celan: Tradução de Veronika Benn-Ibler e Eliana A. de Mendonça Mendes.

Comentários