É tudo culpa dos pais?

“Penso que todo ser humano é, a partir de sua origem,
na sua concepção, ele mesmo, fonte autônoma de desejo.”
(Françoise Dolto, em O Caso Dominique, 1971)
Desde que Sigmund Freud (1856-1939) constrói sua proposição sobre o Complexo de Édipo, bem como após fundamentar sua teoria sobre a Sexualidade Infantil, a pergunta acima parece ter ocupado definitivamente as discussões e reflexões acerca da responsabilidade sobre quem somos, porque somos assim, o que nos leva a escolher alguma coisa em detrimento de outra, o que se passa com as crianças, como os conflitos emergidos na infância regem a vida dos adultos, só para citar alguns pontos importantes.
Não, tudo não é culpa dos pais. Você escolher se relacionar somente com homens autoritários, pois seu pai é homem autoritário, e foi assim que você fixou suas escolhas amorosas, pode até explicar alguns pontos, mas não necessariamente colabora em si mesmo para a mudança. Você procurar mulheres mais maternais e afetuosas, pois sua mãe é assim, também não. Você, ao contrário, procura objetos completamente opostos às suas figuras parentais também não necessariamente fará avançar na problematização.
Freud e outros psicanalistas que vieram logo depois, como Sophie Morgenster (1875-1940), bem como a francesa Françoise Dolto (1908-1988), que tinha um desejo militante por nos transmitir a ideia de que as crianças são sujeitos e certamente funda a Psicanálise Infantil tal como a conhecemos hoje, nos deixam imensas colaborações ao afirmarem que o sujeito, já desde muito pequeno, vai escolhendo. Tem desejos, vontades, escolhas, conflitos e vai lidando com eles conforme as possibilidades que o mundo lhe oferece, claro, mas também em acordo com sua própria singularidade e subjetividade que está se constituindo.

Sim, as experiências vividas com nossos pais nos influenciarão por toda a vida. São nossos primeiros objetos amorosos, por meio deles passamos a conhecer o mundo. Na tenra idade os cuidadores são os nossos tradutores nesta relação com tudo que nos cerca. Inclusive são eles que, primeiramente, interpretam o que queremos quando nossa fala ainda inexiste, é incompreensível ou rudimentar e nos transmitem pela palavra o que recebemos e tudo isto ajuda-nos a organizar o que percebemos. Então, sim, até podemos falar em culpa ou responsabilidade dos pais e mães (ou outros que ocupam este lugar) sobre o que fazemos ou deixamos de fazer. No entanto, é importante nos atentar para o fato que pais e mães erram, falham, fazem escolhas que não concordamos e que nos afetam. Sim, é assim.
De todo modo, é importante afirmar que, com a ajuda de Freud e Dolto temos a possibilidade e a responsabilidade de considerarmos que não somos tão passivos ou submetidos assim, em nenhuma idade. Os pais e mães e depois os irmãos, professores, colegas, namorados e namorados, maridos e esposas e todos os outros que fizerem parte de nossas vidas farão coisas, dirão outras, se omitirão em algumas e isto é responsabilidade deles. Já, como nos afeta, bem... aí é outra história. O fundamental é buscar identificar porque, por exemplo, uma pessoa leva tão a sério os desejos e falas dos pais, enquanto o irmão parece não se importar e, aparentemente, faz o que quer com sua vida. Ou ainda, porque alguns sujeitos sentem-se responsáveis por repetir a história que os antecede, como se fosse um peso ou ainda, querer ser exatamente o contrário e passa a vida se colocando assim: em perspectiva dos pais, sem perguntarem-se sobre seus próprios sonhos, ideais, escolhas e como pode sustentá-las ou desistir delas.
Os outros nos afetam e isto é fundamental: abrir-se às experiências que outras pessoas nos proporcionam. Mas a questão toda é que possamos nos posicionar diante do que nos acontece, interferindo também, colocando algo de nosso, participando ativamente e não só reagindo, se opondo ou aceitando.
Sempre é possível fazer algo a respeito do que nos causa sofrimento, principalmente na infância, tempo que os pequenos sujeitos estão em formação e há muita possibilidade, mas também quando já adultos. Vale ainda afirmar a importância dos adultos oferecerem meios para os pequenos irem constituindo seus próprios recursos, tomando suas decisões (condizentes com tais momentos e idades), criando confiança em suas escolhas ou desistências; mas também que o adulto possa dar-se a chance de explorar outras saídas, verificar a autoria e inventividade de suas escolhas, buscando experiências menos alienadas e alienantes.


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